quarta-feira, 4 de novembro de 2026
CIDADES

Aquidauana e Anastácio: cidades vizinhas com histórias diferentes em Mato Grosso do Sul

Aquidauana e Anastácio compartilham o rio, a memória e a formação histórica, mas foram moldadas por ciclos distintos de navegação, ferrovia, comércio, pecuária e mobilização política.

Aquidauana e Anastácio são cidades vizinhas separadas pelo rio que deu nome à primeira e ajudou a definir a formação da segunda. Apesar da proximidade física e da integração cotidiana, os dois municípios têm trajetórias políticas e econômicas próprias. Aquidauana se consolidou como núcleo regional ligado à navegação, à pecuária, à ferrovia e à presença militar. Anastácio, por sua vez, nasceu como a chamada Margem Esquerda do rio Aquidauana, desenvolveu atividades comerciais e depois conquistou autonomia administrativa.

A história das duas cidades não pode ser contada de forma isolada. A ocupação das margens do rio, a circulação de mercadorias e pessoas e a construção de pontes criaram uma relação permanente entre os dois lados. Ao mesmo tempo, a concentração de decisões e investimentos em uma das margens alimentou disputas que levaram à emancipação de Anastácio, formalizada pela Lei estadual nº 2.143, de 18 de março de 1964.

A fundação de Aquidauana e o papel do rio

A fundação de Aquidauana é tradicionalmente associada a 15 de agosto de 1892. Naquele período, fazendeiros e moradores de Miranda e da região buscavam um ponto que facilitasse as comunicações e o escoamento de produtos entre as propriedades rurais e outras áreas do então Mato Grosso.

Segundo o histórico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a reunião que deu origem ao povoado foi convocada pelo major Theodoro Paes da Silva Rondon. A escolha do local esteve relacionada ao rio Aquidauana, que funcionava como via de circulação em uma região onde os deslocamentos por terra eram difíceis e demorados.

O primeiro núcleo urbano se desenvolveu nas proximidades do rio, em área relacionada à Fazenda Santa Maria. A navegação era uma das principais formas de transporte disponíveis. Mercadorias vindas de Miranda eram desembarcadas em pontos considerados adequados para a movimentação de cargas, e as atividades comerciais se concentraram na margem esquerda, onde surgiram casas, armazéns e uma escola.

Esse processo mostra que a origem de Aquidauana não foi determinada apenas por uma decisão administrativa. A cidade cresceu a partir de necessidades concretas de circulação, abastecimento e comunicação. O rio, portanto, teve dupla função: foi caminho para o transporte e elemento de organização do espaço urbano.

A margem esquerda e a formação de Anastácio

A área que hoje corresponde a Anastácio fazia parte desse mesmo processo de formação. Durante décadas, o local foi conhecido como Margem Esquerda do rio Aquidauana e permaneceu vinculado administrativamente ao município vizinho.

A própria história oficial de Anastácio reconhece essa ligação. O histórico municipal publicado pelo IBGE descreve a relação entre os dois municípios e registra que o primeiro núcleo de desenvolvimento de Aquidauana surgiu na margem esquerda do rio, em terras associadas à Fazenda Santa Maria.

O crescimento da margem esquerda esteve ligado ao comércio e ao transporte fluvial. Antes da expansão ferroviária, o movimento de barcos e cargas dava importância estratégica ao local. A existência de portos e pontos de embarque favorecia a instalação de comerciantes e trabalhadores, criando uma comunidade cada vez mais definida.

Com o tempo, o nome Anastácio passou a identificar o núcleo urbano. A denominação é associada à presença de Vicente Anastácio, imigrante italiano que teria se estabelecido na região no século 19. Como ocorre em muitos relatos de formação municipal, há diferentes versões e camadas de memória sobre a origem do nome e da ocupação. O que está documentado é que a área permaneceu ligada à história de Aquidauana até a criação do município autônomo.

A formação da região também envolveu populações indígenas, especialmente os Terena. Estudos sobre a Aldeinha e outras comunidades da margem esquerda apontam que a presença indígena é parte da história do território e questionam narrativas que explicam a origem local apenas a partir de fazendeiros, comerciantes e agentes públicos. Essa perspectiva amplia a compreensão sobre a ocupação de Anastácio e mostra que a história regional é formada por diferentes grupos e experiências.

A ferrovia muda o centro de Aquidauana

A chegada da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil alterou o equilíbrio entre as duas margens. A ferrovia alcançou Aquidauana no início da década de 1910, e a estação passou a concentrar circulação de pessoas, mercadorias, informações e serviços.

O efeito foi significativo. A atividade comercial que antes se organizava principalmente junto ao rio começou a se deslocar para as proximidades da estação ferroviária. A margem direita, onde se consolidou o centro de Aquidauana, ganhou novo dinamismo. A navegação não desapareceu imediatamente, mas deixou de ser o principal fator de crescimento urbano.

A ferrovia também aproximou Aquidauana de outras áreas do estado e de centros econômicos situados fora da região. O transporte sobre trilhos reduziu a dependência dos caminhos fluviais e contribuiu para fortalecer a cidade como ponto de abastecimento, circulação e apoio às atividades rurais.

Esse processo ajuda a explicar por que Aquidauana e Anastácio, embora tenham origem comum, passaram a apresentar funções diferentes. Aquidauana concentrou a estação, parte dos serviços administrativos e estruturas ligadas ao novo sistema de transporte. A margem esquerda continuou ativa, mas passou a ser vista por seus moradores como uma área menos atendida pelo poder público municipal.

Da convivência à disputa pela emancipação

A diferença na distribuição de investimentos e serviços alimentou uma rivalidade entre os moradores das duas margens. O que inicialmente era uma divisão geográfica tornou-se também uma questão política. Moradores da Margem Esquerda passaram a reivindicar maior autonomia e participação nas decisões que afetavam a comunidade.

Em 20 de novembro de 1958, a área foi transformada em distrito de paz pela Lei municipal nº 1.164. A medida reconheceu a importância do núcleo, mas não encerrou a mobilização pela emancipação. Ao contrário, a criação do distrito deu novo impulso à organização política local.

O Movimento de Independência da Margem Esquerda, conhecido pela sigla MIME, reuniu defensores da separação administrativa. Conforme o registro histórico do município, a mobilização incluiu a coleta de um abaixo-assinado com 1.230 assinaturas, encaminhado à Assembleia Legislativa em defesa da criação do novo município.

A emancipação foi aprovada pela Lei estadual nº 2.143, de 18 de março de 1964. Anastácio foi desmembrado de Aquidauana e instalado como município em 1º de janeiro de 1965. A nova unidade também foi constituída pelo distrito de Palmeiras, então conhecido como Jango, igualmente desmembrado de Aquidauana.

A separação administrativa não rompeu os vínculos históricos. As duas cidades continuaram compartilhando serviços, relações familiares, atividades comerciais, deslocamentos diários e referências culturais. A emancipação criou governos municipais distintos, mas não apagou a origem comum construída ao longo de décadas.

A Ponte Velha e a ligação entre as duas cidades

Durante muito tempo, a travessia do rio dependia de embarcações e balsas. A construção de uma ponte permanente modificou a circulação entre as margens e reforçou a integração urbana.

A Ponte Roldão Carlos de Oliveira, conhecida como Ponte Velha ou Ponte da Amizade, teve a construção iniciada em 1918 e foi inaugurada em 19 de dezembro de 1921, segundo informações da Prefeitura de Aquidauana. A estrutura foi erguida sobre pilares de pedra e elementos de madeira e se tornou a primeira ligação não fluvial entre a área central de Aquidauana e a margem que hoje corresponde a Anastácio.

A ponte é um marco da história regional porque representa uma mudança na relação com o rio. O curso d’água continuou sendo uma referência territorial e paisagística, mas deixou de funcionar apenas como obstáculo ou via de navegação. A travessia permanente permitiu maior circulação de moradores, comerciantes, trabalhadores e estudantes.

Mesmo depois da construção de outras alternativas de acesso, a Ponte Velha permaneceu como símbolo da ligação entre os municípios. Sua importância está menos na função de transporte atual e mais na capacidade de representar a memória compartilhada pelas duas comunidades.

Duas cidades, identidades complementares

Aquidauana se consolidou como município de grande extensão territorial, com áreas associadas à Serra de Maracaju e ao Pantanal. A cidade preserva referências de sua formação ferroviária, de seu centro histórico e da relação com o rio. A presença de comunidades Terena, a pecuária e as atividades ligadas ao turismo também fazem parte de sua identidade contemporânea.

Anastácio desenvolveu uma identidade própria a partir da antiga Margem Esquerda. A cidade guarda marcas da formação comercial ribeirinha, da presença indígena, das atividades rurais e da mobilização que levou à emancipação. Sua história é a de uma comunidade que se formou vinculada a outra cidade, mas construiu instituições, memória e organização política próprias.

As diferenças entre os municípios não significam isolamento. Pelo contrário, a proximidade produz uma dinâmica de cidades integradas. Moradores atravessam diariamente o rio para trabalhar, estudar, acessar serviços, fazer compras ou participar de atividades culturais. A divisão administrativa existe, mas a vida social ultrapassa os limites oficiais.

Por que a história das duas cidades continua ligada

A história de Aquidauana e Anastácio mostra como rios, ferrovias e decisões administrativas podem reorganizar uma região. O rio Aquidauana favoreceu a circulação inicial e deu origem a um núcleo urbano. A ferrovia deslocou o centro econômico para perto dos trilhos. A ponte aproximou as margens. E a disputa por serviços e representação política levou à criação de um novo município.

Por isso, contar a história de apenas uma das cidades é deixar de explicar parte essencial da outra. Aquidauana representa o município de origem e a consolidação regional ligada à ferrovia e ao Pantanal. Anastácio representa a trajetória da margem que se tornou distrito, depois movimento de emancipação e, finalmente, município independente.

Separadas pelo rio, as duas cidades permanecem unidas por uma formação histórica comum. Suas diferenças ajudam a entender as escolhas e conflitos de cada período; seus vínculos mostram que a identidade regional foi construída dos dois lados da mesma paisagem.

Fontes consultadas: IBGE – histórico de Aquidauana, IBGE – histórico de Anastácio, Prefeitura de Aquidauana e Câmara Municipal de Anastácio.